
São Paulo, como todo centro urbano, tornou-se um espaço neutralizado, homogeneizado. Um espaço da indiferença, dos guetos, das raças, dos signos. Cada instante da vida é perdido na consumação da diferença entre seus milhões de signos.
Tudo é concebido e projetado pelo habitat, transporte, trabalho, lazer, jogo, cultura. São Paulo não é mais um espaço geográfico. Sua verdade se tornou o gueto da televisão, da publicidade, dos leitores lidos de antemão, dos consumidores/consumidos, dos decodificadores codificados, dos circulantes/circulados, dos distraentes/distraídos do lazer. Em cada espaço da vida urbana se forma um gueto, e todos se conectam entre si.
O espaço de solidariedade - da antiga fábrica, do antigo quarteirão e da antiga classe social - desapareceu, todos separados por modelos de comportamento, em delírios de identificação. O levante do paulistano está em dizer: "Eu existo, eu sou tal, eu faço isso, eu vivo aqui e agora". Apenas a revolta da identidade: combater o anonimato reivindicando uma realidade exclusiva.
Na contramão disso tudo, aparecem os muros, com seus graffitis, celebrando a obscuridade. Eles não buscam conquistar uma identidade impossível, mas o extermínio dessa mesma busca - não querem dizer nada, são apenas registros simbólicos para derrotar o sistema comum, como se fossem a própria revolta dos signos. Explodem como um antidiscurso, numa recusa de toda elaboração sintática, poética e política.
Não têm intimidade ou vida privada, mas vivem uma intensa
troca coletiva. O que reivindicam não é a identidade. Ao avesso, são feitos para serem doados, trocados, transmitidos ou religados entre si, num anonimato coletivo, no qual se declaram uma propriedade de ninguém.