
Gosto de andar por ai. Pelo simples faro da curiosidade ou pelo dom da visita inconsequente. Renasci numa província, lugar de piscinas, cachoeiras, matagais-corredores, barro-pedregulhos e pinguelos-pontes. Sempre gostei disso, seja pra jogar bola no campinho de areia, nadar no rio, chegar pedalando e suado no horto florestal e subir morro acima, de onde posso ver todo meu contentamento, meu destino e minha ousadia: conquistar esta cidade.
Deixo a noite cair, mesmo sabendo do castigo do dia seguinte, pra ver, por entre as árvores, a cidade nascer-pulsar onde as luzes acendem nova vida desconhecida. No céu, a mancha-mapa clareia a escurão da noite em universo. É aqui, em SJC, onde renasci há dois meses, que conquisto, memória após memória, caminhada após caminhada, porre após porre, histórias que percorrem meus personagens diários. Esses personagens que já me permitem respirar mais leve, dormir mais tranquilo, acordar mais desperto e sonhar mais são.
Hoje são muitos, não cabem num livro ou num filme qualquer. Em minhas caminhads atrás do trabalho, da grana, da paixão ou do prazer, marco em meu excel imaginário, as casas e lugares visitados, conquistados e convidados, desde que fui ao centro sozinho, renovar meus documentos e virar estatística. Já existem lugares que passo e reverencio. Há outros que tento puxar da gaveta fechada. Há meu castelo-casa, de onde destravo meus sonhos de vidas passadas, e onde convivo com meus novos amigos, protetores e parceiros de novas caminhadas.
Mas a verdade fulminante, como a vida assim é, me faz girar a cadeira e pousar, suavemente, os olhos sobre noites passadas com muita música, gargalhadas, histórias, mentiras e amores. Até hoje sinto que existe algo de inocentemente estranho no passado que nos abandona. Faz falta. Como faz falta algumas grandes figuras que conheci e me afastei, casualmente. Chamo todas essas pessoas de “mestres dos sonhos”. Pessoas cheias de vida, inocência, alegria, intensidade, verdade, prazer, suavidade, imensidão, aprendizado e ousadia. Que, a mim, atingiram uma vez só e transformaram, para sempre, a minha vida.
Muitas vezes, poderia ter parado em frente às suas casas, apertado a campainha. Algumas vezes parei, e isso fez toda a diferença. Outras vezes não parei, apenas segui em frente. Ah! Meus velhos amigos! Lembro de nossas canções incessantes, de nossas noites de portas fechadas e garrafas abertas. As viagens, os jantares na madrugada. Noites que aguçaram meu paladar, afiaram meus ouvidos.
Caminhamos todos os dias. Atravessamos estações. Nao pretendo esquecer nenhuma delas e, por isso, recuso a despedir-me de qualquer pessoa que eu encontre ou ja tenha encontrado pelas ruas dessa vida. Quero deixar minhas pousadas por ai, abertas a visitação. E continuarei meus encontros de almoço, de tardes de mormaço, de noites recém-criadas. Que vivamos muito!!!