22 de dezembro de 2009

A Crença que nos faltava

O ateísmo se tornou muito óbvio diante de uma raça 70% abandonada e 30% não-abandonada. Deus, como insistem os filósofos, “é uma forma variável sem controle e sem origem”.

O marginalismo de hoje é não acreditar em aquecimento global. E confesso minha heresia: não acredito que meu pequeno carro aqueça o planeta - embora começe a pagar mais impostos por isso. Acho essa história uma mistura de ego (disputamos com o sol pra ver quem aquece mais) e principalmente tédio (que tal salvar o planeta? A vida está mesmo sem graça!).

O mundo aqueceu nos anos 20. A partir daí, todos os anos atingem os mesmos 34 graus no verão, pelo menos em minha cidade. Nosso problema é a retirada irresponsável de carbono da terra. Mas inventamos essa maldita crença. Meu cachorro anda triste? Deve ser o aquecimento global...

O que chamam de fato científico, só acredito quando não tem a ONU no meio e gente ganhando milhares de Euros para "salvar" o planeta.

7 de dezembro de 2009

As Cores de Barack

Uma pesquisa conduzida pelas universidades de Chicago (EUA) e Tilburg (Holanda), atestaram que o tom da pele de Barack Obama varia de acordo com a ideologia de quem a vê. Na prática, o estudo indica que as pessoas identificam um tom de pele mais claro com um candidato mais desejado.

Com base em imagens alteradas digitalmente, pesquisadores consultaram mais de cem universitários apontassem a foto que melhor representava Obama. Os liberais indicaram imagens clareadas, enquanto os conservadores indicavam as escurecidas.


Uma das hipóteses e que, culturalmente, os americanos estão mais inclinados a associar “luminosidade a algo bom e citam ainda a foto da capa da revista Time, com a foto do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson escurecida logo após ser acusado de assassinato.

4 de dezembro de 2009

Natal Diet

O Brasil se encontra, atualmente, entre os campeões mundiais em extravagância natalina. Excessos à parte, será que os gastos natalinos são pelo menos um bom negócio para a economia do país? Será que estamos criando ou distribuindo riqueza?

Joel Waldfogel, da universidade da Pensilvânia, defende que o Natal é uma calamidade econômica e destrói riquezas consideráveis. Para começar, perguntou aos presenteados quanto disporiam a pagar pelo presente que ganharam. Os agraciados, em média, estariam dispostos a pagar 47% do custo do presente. Ou seja, 47% do que foi gasto não produziu valor nenhum. Waldfogel, desse modo, defende o uso do vale-presente e do “dinheiro vivo” como presente.

É possível que a troca de presentes natalinos seja uma maneira de torrar recursos só para mostrar nossa “riqueza” (aos outros, ou a nós mesmos). Mas de quem amo, não espero aquele presente que procuro há tempos (já que eu mesmo posso comprá-lo). Espero algo que eu não sabia que queria. O verdadeiro presente é aquele que descobre meu próprio desejo.

Invasões Bárbaras

Está no Senado, enfim, o projeto de lei que pune a discriminação sexual. Pra variar, de um lado, a barbárie. De outro, a civilização. Bárbaros são aqueles que não toleram qualquer comportamento alternativo e buscam impor suas maneiras de ser aos demais. Civilizado é aquele capaz de criticar racionalmente o preconceito. É aquele que conhece o acaso. Sabe do acaso de nascer neste e não naquele país, pertencer a esta e não àquela classe social.

O fato de uma pessoa exercer determinada escolha não impede que a outra exerça a sua. No entanto, ainda ouço zumbidos de que o sexo não-reprodutivo contraria as leis naturais. Não seria um erro infantil confundir as leis da natureza, descritivas (que dizem o que realmente acontece), e as leis humanas, prescritivas (que dizem o que deve ou não ser feito)? O ser humano vive em constante e radical mutação.

Cada indivíduo é capaz de mudar a si próprio, criar o que ainda não existe, substituindo o instinto (natural) pela experimentação (humana). Esperemos que o Senado escolha o caminho da civilização.

2 de dezembro de 2009

Sanas da Medicina

Ninguém jamais acusou o médico romano Samodecus por ter impetrado a palavra-fórmula “abracadabra”. Samodecus, quando se tornou médico do imperador Tibério (líder que sofria de diversos males), adotou uma prática que se revelaria infalível. Escrevia a palavra “abracadabra” num papiro e mandava Tibério engolir junto a três goles de leite de cabra.

Tibério ficava bem e, tranquilo, se trancava no quarto para exercer sua atividade favorita: matar moscas. Generais, cônsules e escravos foram assassinadoss porque o interromperam nesses momentos. A mania de Tibério só podia ser interrompida quando ele mesmo decidia pegar uns garotos e levar para a piscina.

Historiadores renomados, em diversas épocas, tacharam Tibério de maníaco e depravado, pelas moscas e pelos garotos. Mas Tibério foi o que mais estendeu as fronteiras da Roma Antiga. Para ele, a fórmula deu certo.

27 de novembro de 2009

Um Deus Que Ainda Vai Existir

No início do século XX, o teólogo Teilhard de Chardin queria, de qualquer maneira, resolver os mal-entendidos entre ciência e religião. Na esperança por um mundo socialista (não-Stalinista), observou que, no dia em que houver um regime integralmente solidário, velhos organismos insistiriam em sobreviver. Um desses organismos seria a igreja. Mas como a igreja sobreviveria num estado ateu e socializante?

Resposta óbvia para o francês: encontrando um preceito que dê, a Estado e Igreja, bases para a coexistência. Foi assim com a Reforma Luterana, a Revolução Francesa, Charles Darwin e Revolução Russa. A doutrina viria naturalmente, no ventre da própria igreja, mas Chardin a anteciparia: "O homem como cria e construção do universo, unindo-se cada vez mais com outros homens”.

Resolvido o litígio (capaz de unir ecumênicos e materialistas), faltava a questão capital e aparentemente insolúvel: a presença de Deus nessa união. Chardin refletiu por meses e, por fim, lhe veio a luz: “O Deus que deveríamos crer ainda não existe, mas vai existir. A culpa, portanto, não é humana, mas do Deus que ainda está por vir”.

26 de novembro de 2009

Crianças, Fantasmas e Adultos

Adultos lotando salas de cinema e livrarias à caça de fantasmas, fábulas de vampiros, atrás dos chamados “crossovers”, formatos que, outrora batizados de infanto-juvenis, agora seduzem crianças e adultos. É o caso dos best-sellers (e blockbusters) “Senhor dos Anéis”, “Crepúsculo”, “2012”, “Os Fantasmas de Srooge”.

Em seu novo livro “Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos” (Record), Benjamim Barber nos lembra que chegaram os “kidadults” (“criançadultos"), nova classe que veio como banquete para a indústria cultural. Barber explica que, depois dos anos 50 (“pós-guerra”), nasceu um tipo especial de amor dos pais pelos filhos, que enchiam suas crianças de esperanças e expectativas, onde rebentos teriam que ser aquilo que “papai e mamãe” não conseguiram.

Isso criou um tipo de consumidor voraz: indivíduos com pouca tolerância às frustrações, às dificuldades e com tendências à satisfação imediata. Efeito moral? Quem cresce sem nunca se deparar com dificuldade, acaba, mais cedo ou mais tarde, vivendo no desespero, porque só consegue atribuir o fracasso à sua própria fraqueza.

23 de novembro de 2009

Ficção em Vida

Dizem que a leitura andou se tornando uma atividade mais feminina. A explicação é que as mulheres trabalham menos e, assim, se dedicam mais às fantasias. Como sou alérgico à divisão entre saias e calças, só me resta uma certeza: há cada vez menos leitores no mundo, e uma sociedade sem leitura está fadada a pôr sua própria liberdade em risco.
A
moda agora é a especialização do conhecimento. São os guetos de técnicos e especialistas que fazem do conhecimento uma utilidade programada - ponderando a vida com esquemas e fórmulas. A literatura, ao contrário, sobrou como único espaço para que indivíduos se dialoguem e se reconheçam como membros da mesma espécie, armando-se contra o preconceito, refletindo sobre o que somos e como lidamos com nossos atos, sonhos e fantasmas.

Esse conhecimento “totalitário” (e não especializado) do ser humano encontra-se, hoje, apenas no romance que, em prol da liberdade, continua como maior alimento contra as ofensas e imposições deste mundo que nos obriga a sermos iguais. A literatura nos torna mais mais complexos, mais intensos, mais lúcidos do que qualquer rotina forçada. A literatura é a grande confirmação que a única vida bem vivida está na ficção.

18 de novembro de 2009

Entrevista com Deo Lopes

Conheci Deo Lopes em sua apresentação solo, no Café Photozofia (SFX). Sentado ao palco, de sorriso acanhado e inabalável, Deo logo expôs seus caninos de circo, suas veias de trovador. Depois fui à Monteiro Lobato assistir seu grupo regionalista Trem da Viração. Faltava, apenas, conhecê-lo pessoalmente. Então tive o prazer de cair na estrada com esta lenda do Paraíba, com oito discos na bagagem e que, a cada quilômetro, reforçava sua peculiar mistura entre Tom Waits e Antônio Nóbrega, cantando, conversando, ensinando, em silêncio.

Quando
começou a compor?
Componho desde menino, ouvindo músicas sertanejas de raiz. Aos 18, já participava de festivais em São Paulo, Franca, Batatais, São Joaquim da Barra, Piracicaba.
O que a música folk representa, de fato, para você?
Gosto de músicas que falam da natureza, de anseios, contam histórias de dor e esperança. Gosto de música regional, música rústica. Não me preocupo com grandes arranjos. Procuro o conteúdo, a beleza melódica. Tudo é mais simples do que pensamos e queremos.
Algum ídolo eterno em sua jornada?
Alvarenga e Ranchinho, Inhô Pai, Inhô Fio, Cascatinha e Inhana. Na música popular, Chico Buarque, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Jobim, Vinícius, Paulinho Da Viola. Na música internacional, Tom Waits, Philip Glass, Lauri Anderson.
E seus projetos solo, como estão?
Estou preparando um grupo para gravar Abaixo do Sol, projeto que tenho há cinco anos. Tem também o Contador de Canções, que comecei este ano, com direção do Marcos Cuca.

14 de novembro de 2009

Juízos Modernos

A cultura relativista e multiculturalista, mais um desses folclores contemporâneos, afirma que cada período histórico possui suas próprias concepções de mundo e, portanto, jamais poderíamos dizer que uma época foi melhor que outra (particularmente, acho que o homem viveu muito melhor no século XIX do que no XX).

Cada cultura possui um sistema fechado, onde o comportamento apenas pode ser julgado por sua própria cultura. Enfim, não podemos julgar uma cultura utilizando valores de outra. Muçulmanos vão continuar acreditando em paraísos apinhados de virgens. Índios em seus espíritos da floresta. E o ocidente se dissolverá, relativizando a si próprio.

7 de novembro de 2009

Nos Porões da Resistência

Da clássica troca de mimos entre música e política, no final do século XX, nascia a B92, pequena rádio comunitária enfurnada nos escombros de Belgrado durante a guerra da Iugoslávia - que dividira a República Socialista no início da década de 1990. Liderada por jovens obcecados por rock’n’roll, literatura e arte – e oprimidos pelo nacionalismo sangrento de Slobodan Milosevic –, a B92 imprimiu seu sonho de liberdade equipada por um modesto rádio-transmissor e alguns álbuns de rock.
Escrito por Matthew Collin, B92 - Rádio Guerrilha descreve, em pormenores, a empreitada apaixonada desses rapazes, auto-intitulados de “geração perdida”, sôfregos em transmitir seu jornalismo cortante, sua música urgente, pautada pelo grunge de Seattle, o house beat de Chicago e muito hip hop.

Veran Matic, editor e capitão da equipe, lançava campanhas para legalizar a prostituição, o homossexualismo e o uso de drogas leves - além de convocar, em suas entrevistas, ideólogos renegados pelo regime. A B92 era assim, a própria antítese de Milosevic, borrando de vermelho a arquitetura social e política da ex-Iugoslávia.

25 de outubro de 2009

Entrevista com Leona Cavalli

As letras parecem mesmo invadir as artes cênicas. Depois de Vera Fisher (e inúmeros outros atores) lançar recentemente sua biografia, agora foi a vez de Leona Cavalli expor suas inclinações literárias. Revelada pelo teatro paulistano e por mergulhos esporádicos na televisão, a atriz acaba de lançar a obra O Caminho das Pedras, espécie de bússola para intérpretes e aspirantes dos palcos e da teledramaturgia.

Em entrevista para Diários de Babel, Leona explica como surgiu a idéia: “O livro nasceu de palestras e cursos de interpretação que faço, desde 1999, com a dramaturga Ana Vitória Vieira Monteiro, onde abordamos desafios e dilemas da carreira de um ator, como fama, ego, timidez e preconceito”. Atualmente, Leona divide seu tempo entre a montagem de um monólogo para o teatro e sua rotina de gravações na TV. “A carreira de atriz é bastante intensa e cheia de surpresas. Passamos por muitas transformações. Isso é o que verdadeiramente nos apaixona”.

24 de outubro de 2009

Índios e Cabalas


Enquanto os de baixo pregam anjos e demônios, os de cima babam índios fofinhos, cabalas, energias, aquecimento global. O moralismo barato está em voga! A verdade é que todo mundo quer que a economia gire, o dinheiro circule e venha parar em nossos bolsos. Como é difícil esse mundo de gente grande!

23 de outubro de 2009

Revoluções Musicais do Século XX

E não poderia deixar de falar de meu novo livro, "Revoluções Musicais do Século XX" (Giz Editorial), lançado na XIV Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, com apresentação de Arrigo Barnabé. Sinopse: Das mãos calejadas e sofridas dos afro-americanos brotaram as sementes de um novo mundo. Assim surgiam os estilos de música popular que abalariam as estruturas da civilização ocidental, atuando e transformando, para sempre, a psicologia do mundo moderno. Revoluções Musicais do Século XX descreve a maneira pela qual esses gêneros foram criados e produzidos, dando igual atenção a seus processos de consumo, aspectos sociais, econômicos e tecnológicos.

"Pedro Rosas surpreende com uma interessante compilação reunindo os principais movimentos da música popular, dando luz aos momentos que transformaram a sociedade do século mais intenso de nossa história."

Arrigo Barnabé

"Revoluções Musicais do Século XX traz uma contribuição valiosa para a literatura musical, esclarecendo a origem da nossa música, em particular, e da música mundial, com uma visão ampla sobre os inúmeros movimentos criados no século XX.”

Nenê (Hermeto Pascoal, Egberto Gismont, Stan Getz).

13 de outubro de 2009

Concílio das Raças

Há 250 anos, nos EUA e França, foi proclamado o princípio de que, por pertencermos à mesma espécie, temos os mesmos direitos, independente de etnia, cultura, religião, gênero, berço e cor. O problema é que as forças adotadas para lutar contra a discriminação e permitir, enfim, uma sociedade de iguais, acabaram consolidando as próprias diferenças.

Exemplo disso é a política de cotas (nas universidades, empregos públicos ou privados), um artifício para nos opormos à discriminação, mas que, para funcionar, exige que a gente acredite nas diferenças raciais.

Em compensação, desde 1994, quando a política foi adotada nos EUA, (aos poucos) a presença de cidadãos de todas as cores na maioria das corporações se transformou num duplo valor compartilhado por todos, no sentido estético (a diversidade é bonita!) e produtivo (a diversidade é funcional!). Até que um dia tornou-se natural que um negro se elegesse presidente da república.

7 de outubro de 2009

O Mito da Inveja

As pessoas não são todas iguais e nenhuma sociedade pode mudar isso. Mulheres feias detestam mulheres bonitas, homens com menos sucesso detestam homens bem-sucedidos. Se o fantasma da mulher é a falta de beleza, o do homem é a falta de coragem.

Tudo causado pela insegurança estrutural humana, e a inveja é um fato científico, não ideológico. A humildade não brota entre invejoso, por exemplo. Mas o problema é o risco da inveja dominar as relações sociais e iniciar as chamadas repressões da diferença, da hierarquia de beleza e inteligência entre as pessoas. A ditadura dos invejosos sempre foi um dos maiores desafios contra a liberdade de nossos tempos.


Para quem leu a Bíblia e conhece a história do “altíssimo”, sabe que Deus nunca foi humilde, mas não por ser um pobre filho de carpinteiro, mas porque era Deus, “O Cara!”.

22 de setembro de 2009

Redator de Bulas

Assim como as missas em latim, as críticas literárias em português arcaico, os filmes de Glauber Rocha; as bulas de remédio só podem ser escritas e lidas por profissionais do ramo.

Não só é difícil para leigos, como é melhor que nem leiam, porque as reações adversas provocam, por um analgésico qualquer, desde nariz entupido, coceira, até asma e escorbuto, infarto e derrame cerebral.

Mas tudo isso vai mudar a partir de 2011, quando as bulas terão de ser escritas em português corrente, trelinhamento e fonte de texto grande. Além disso, virão em forma de pergunta e resposta e citarão as porcentagens de ocorrência das tais reações adversas. Enfim, as bulas não poderão mais humilhar ninguém. Quem sabe não serei um grande redator de bulas?

21 de setembro de 2009

Futebol, Tortura e Morte

A eclosão da Segunda Guerra (1939-45) fez com que as Copas de 1942 e 46 não pudessem ser realizadas - o que não impediu uma das passagens mais épicas e nefastas do futebol. Um dos principais times da Ucrânia (incorporada à URSS) era o Dínamo de Kiev, formado por funcionários de uma padaria. Em 1942, para conquistar a empatia dos ucranianos, os nazistas permitiram que um campeonato fosse realizado na Ucrânia.

Para os ucranianos, vitimados pela fome e pela ocupação militar, uma partida de futebol seria pura diversão. Nesse campeonato, o Dinamo, depois de vencer todas as partidas, enfrentou o PGS, time de uma unidade militar alemã. Os alemães acabaram sendo goleados - assim como o Flakelf, formado pela força aérea alemã. Os nazistas não acreditavam! Parecia impossível que um time formado por subnutridos, considerados "sub-raça”, pudessem vencer a soberania ariana.

Inconformados, marcaram uma revanche, com o estádio Zenit lotado. Os ucranianos foram instruídos a cumprimentar os adversários com a saudação nazista "Heil Hitler!". Em ato de rebeldia, no entanto, os soviéticos gritaram "Fizsculthura!" – mistura de fitzcultura ("cultura física") e hurrah ("vida longa ao esporte"). Apesar do árbitro roubar o o jogo inteiro a favor dos nazistas, o Dinamo venceu o Flakelf por 5x3. Para os torcedores ucranianos, aquilo, mais do que um jogo, foi um ato de resistência e os jogadores do Dinamo se transformaram em heróis nacionais.

Dias depois, na padaria onde trabalhavam, os atletas do clube foram presos pela Gestapo. O pretexto foi de que todos faziam parte da NKVD, a polícia secreta soviética. Levados para interrogatório, os ucranianos foram torturados e quatro deles acabaram mortos. Dos que sobreviveram, todos tiveram que abandonar o esporte.

16 de setembro de 2009

Casar contra quem?

Uma das boas razões para se casar é poder culpar o outro pelas próprias covardias. Um homem pode responsabilizar mulher e filhos por ter desistido de ser o “aventureiro” que ainda dorme. Assim, a decepção consigo mesmo é menos amarga quando transformada em acusação: “Você está me impedindo de alcançar o que não tenho coragem de querer!”.

Os sonhos de conquista dos homens derivam das esperanças que as mães depositam neles. Mas não pensem que isso seja a causa primordial dos divórcios. Ao contrário, traz força ao casamento. “Ainda bem que você está aqui, do meu lado, dando-me uma desculpa. Sem você, eu teria de encarar a verdade, o fato de que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos.”

Pensando assim, a gente sempre casa com a pessoa certa: a que podemos culpar por nossos fracassos. E como compensação pelos sonhos dos quais desistimos, passamos as tardes de domingo num sofá. Minha mulher pede para brincar com as crianças ou ir até a padaria. “Mas logo a mim, que deveria estar explorando o Nilo ou negociando a paz na Somália?”.

Mas mesmo assim ela nunca está satisfeita comigo. Em suma, eu não presto! Nem para minha mãe, que me queria um herói, nem para minha esposa, para quem renunciei em ser herói.

9 de setembro de 2009

Pedaços de Vida

O habitat da alma vive entre Deus e o Diabo. Sem esse disparate, a alma se dissolve, se atrofia. O habitat da miséria humana é a vaidade, e a vaidade sempre quer agradar. No fundo deste desejo, está o trauma infantil do desamparo: ao tentar agradar, fugimos do abandono.

Dentro de minha pequena alma seca, meus olhos vasculham o mundo, em busca de algo que explique cientificamente meus medos. Algum artista há de pintar o rosto do pequeno deus miserável que imagino existir dentro de mim? Confesso que não tenho uma concepção de vida. Sou um coitado. Pelas frestas da janela, vejo a vida aos pedaços, arrastando-se pelas ruas.

Tentei impetrar alguma concepção de vida, mas sei que os problemas do mundo existem porque todo mundo quer uma concepção de vida. Há uma luta entre Deus e o Diabo e seu palco é o coração humano. Como Deus é piedoso, dele aprendo a humildade. Como o diabo é infeliz, dele aprendo a vaidade. Ambos são improváveis e por isso merecem minha fé.

26 de agosto de 2009

Arte para Críticos

Muitas vezes, a Arte Contemporânea parece apenas existir para garantir emprego aos críticos - já que, sem suas análises, as obras nos diriam pouco ou nada.

Seus criadores, do mesmo modo, parecem se preocupar em questionar, exclusivamente, o próprio ato de criar - como um mágico que mostra as pombas ao invés de nos iludir com seu truque.

Talvez a Arte Contemporânea tenha sido devorada pelo desejo de explicar a si mesma.

19 de agosto de 2009

Entrevista com Zé Eduardo Nazário

Em meio a pólvoras e repressão, Nazário conta como foi lançar o primeiro disco instrumental independente no Brasil

O período militar brasileiro, que assolou a produção cultural no final dos anos 60, tornou exígua qualquer esperança de se fazer música que não habitasse os territórios consentidos pelo governo. A repreensão foi sentida principalmente por artistas experimentais, vindos da música instrumental. Com a censura consolidada, muitos músicos foram obrigados a criar seus frutos em terras estrangeiras.O baterista e compositor Zé Eduardo Nazário (indicado ao Grammy na categoria “best jazz performance”, depois de atuar com Hermeto Pascoal e Egberto Gismont), foi um dos que souberam aproveitar a herança dos mestres exilados para derrubar os muros que embargavam a música brasileira – lançando, com o Grupo Um, a primeira obra instrumental independente produzida no país: o disco Marcha Sobre a Cidade, de 1979.

Marcha na Cidade saiu numa época de censura irrestrita e...
O Grupo Um encontrou um caminho muito difícil. Não havia mercado para música instrumental no Brasil. Concluímos que era preciso produzir um disco independente. Assim lançamos Marcha Sobre a Cidade.

Ser precursor da música experimental e independente, em plena ditadura, não é pouca coisa...
Já havia música instrumental, mas não independente, de vanguarda. Ainda mais com o AI-5, em 1968, quando arrasaram tudo. Todos esses músicos que citei, partiram para EUA e Europa. Não sobrou ninguém. Reconstruímos a música a partir de uma terra devastada que colocou a novela em primeiro lugar. O povo ficava em casa, restrito a assistir televisão, com medo de sair às ruas. Foi a realidade que vivemos, de passar em “pente-fino” quando íamos tocar. O exército bloqueava as ruas, revistava todo mundo. Se não fossem com sua cara, metiam uma bala na cabeça e pronto.

17 de agosto de 2009

Hecatombe Antifumo

Quer dizer que me proibiram de morrer sem saúde? Com que direito? Do totalitarismo, ávido em ignorar conquistas democráticas, como as liberdades individuais e a constituição republicana?

No lugar de fiscalizarem o trabalho e a prostituição infantil, a lavagem de dinheiro público, e outros problemas muito piores, estão gastando verba para coibir comportamentos lícitos e escolhas comportamentais livres, na dormência de uma classe média despolitizada?

Estão bebendo sangue europeu e cuspindo liberdade latina? Então fechem logo as portas! Reboquem as paredes! Subam muros e fronteiras! Expulsem as meninas dos rendez-vous e recebam logo os aplausos dos que fecharam suas almas pra balanço!

O absolutismo da lei começa por seu próprio dogma: "O fumo passivo é um perigo mortal para terceiros". Um dogma fantasioso (não há comprovações, segundo a Organização Mundial de Saúde, de doenças ligadas ao fumo passivo), que ainda estabelece o perigo de uma divisão moral entre fumantes ("vilões") e abstêmios ("vítimas inocentes").

Proibir o fumo em bares ou restaurantes é, também, uma afronta à liberdade dos proprietários em decidirem que tipo de clientes e projetos desejam adotar. O pior de tudo, no entanto, vem pela fiscalização voluntária. Por telefone ou internet, um cidadão pode patrulhar seu vizinho, denunciando comportamentos "maléficos". Qualquer semelhança com o stalinismo, o fascismo e o nazismo seria mera coincidência?

A saúde "controlada" sempre esteve ligado às paixões totalitárias e seus ideais de eugenia. Esta inspiração nasce através dos muitos séculos de cristianismo, com seu desejo obsessivo pela "perfeição". Um governo democrático não deveria conter esses impulsos de purificação, atendo-se à condição de "síndico" e não de "reformador"?

14 de agosto de 2009

Homem Trancado, Mulher Asfixiada

Para o homem, o maior ganho com a emancipação feminina, foi poder se livrar do jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como todas as outras, pode ser fatal, deixando o homem só.

As mulheres sempre foram dependentes e, portanto, sem grandes papéis além de filha, esposa, mãe, amante. Com a emancipação, no entanto, esse jogo se desmancha e o homem pode enfim respirar e dizer: “Não quero mais você. Não sou responsavel pela sua vida, porque agora você é independente”.

A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre cozinha e tanque, e o homem asfixiado entre escritório e uma mulher sem desejo.

10 de agosto de 2009

Luzes Acendem Nova Vida

Gosto de andar por ai. Pelo simples faro da curiosidade ou pelo dom da visita inconsequente. Renasci numa província, lugar de piscinas, cachoeiras, matagais-corredores, barro-pedregulhos e pinguelos-pontes. Sempre gostei disso, seja pra jogar bola no campinho de areia, nadar no rio, chegar pedalando e suado no horto florestal e subir morro acima, de onde posso ver todo meu contentamento, meu destino e minha ousadia: conquistar esta cidade.

Deixo a noite cair, mesmo sabendo do castigo do dia seguinte, pra ver, por entre as árvores, a cidade nascer-pulsar onde as luzes acendem nova vida desconhecida. No céu, a mancha-mapa clareia a escurão da noite em universo. É aqui, em SJC, onde renasci há dois meses, que conquisto, memória após memória, caminhada após caminhada, porre após porre, histórias que percorrem meus personagens diários. Esses personagens que já me permitem respirar mais leve, dormir mais tranquilo, acordar mais desperto e sonhar mais são.

Hoje são muitos, não cabem num livro ou num filme qualquer. Em minhas caminhads atrás do trabalho, da grana, da paixão ou do prazer, marco em meu excel imaginário, as casas e lugares visitados, conquistados e convidados, desde que fui ao centro sozinho, renovar meus documentos e virar estatística. Já existem lugares que passo e reverencio. Há outros que tento puxar da gaveta fechada. Há meu castelo-casa, de onde destravo meus sonhos de vidas passadas, e onde convivo com meus novos amigos, protetores e parceiros de novas caminhadas.

Mas a verdade fulminante, como a vida assim é, me faz girar a cadeira e pousar, suavemente, os olhos sobre noites passadas com muita música, gargalhadas, histórias, mentiras e amores. Até hoje sinto que existe algo de inocentemente estranho no passado que nos abandona. Faz falta. Como faz falta algumas grandes figuras que conheci e me afastei, casualmente. Chamo todas essas pessoas de “mestres dos sonhos”. Pessoas cheias de vida, inocência, alegria, intensidade, verdade, prazer, suavidade, imensidão, aprendizado e ousadia. Que, a mim, atingiram uma vez só e transformaram, para sempre, a minha vida.

Muitas vezes, poderia ter parado em frente às suas casas, apertado a campainha. Algumas vezes parei, e isso fez toda a diferença. Outras vezes não parei, apenas segui em frente. Ah! Meus velhos amigos! Lembro de nossas canções incessantes, de nossas noites de portas fechadas e garrafas abertas. As viagens, os jantares na madrugada. Noites que aguçaram meu paladar, afiaram meus ouvidos.

Caminhamos todos os dias. Atravessamos estações. Nao pretendo esquecer nenhuma delas e, por isso, recuso a despedir-me de qualquer pessoa que eu encontre ou ja tenha encontrado pelas ruas dessa vida. Quero deixar minhas pousadas por ai, abertas a visitação. E continuarei meus encontros de almoço, de tardes de mormaço, de noites recém-criadas. Que vivamos muito!!!