23 de março de 2010

Ficção em vida

Dizem que a leitura está se tornando uma atividade cada vez mais feminina. A explicação é que as mulheres se dedicam mais às fantasias. Como sou avesso à divisão entre saias e calças, só me resta uma certeza: há cada vez menos leitores no mundo, e uma sociedade sem leitura está fadada a pôr sua própria liberdade em risco. 

O grande barato agora é a especialização do conhecimento. Os guetos de técnicos e especialistas que fazem do conhecimento uma utilidade programada, mostrando a vida com esquemas e fórmulas. A literatura, ao contrário, sobrou como espaço para que indivíduos se dialoguem e se reconheçam como membros da mesma espécie, armando-se contra o preconceito, refletindo sobre o que somos e como lidamos com nossos atos, sonhos e fantasmas.

Esse conhecimento “totalitário” (e não especializado) encontra-se, hoje, na ficção, que, em prol da liberdade, continua como maior alimento contra as ofensas e imposições deste mundo que nos obriga a sermos iguais. A literatura nos torna mais intensos do que qualquer rotina forçada. A literatura é a grande confirmação que a única vida bem vivida mora dentro da ficção.

7 comentários:

Cláudio Luiz Russo disse...

Olá Pedro,
quando seus e-mails começaram a aparecer na minha caixa, confesso que os recebi com "quatro pés atrás".Comecei a lê-los por curiosidade e fui gostando, gostando, gostando e hoje posso dizer que sinto-me contemplado no seu texto.
Obrigado por resistir.
Abraço...

André Cortez disse...

Tudo isto vale para o teatro também... com mais tentáculos de comunicação, mesmo que, às vezes, expanda ou limite os recursos da literatura...
abraços...

Valquíria Lemos disse...

Aquilo que você não conhece, existe!

Renata Czekay disse...

Estive no seu blog... e pude me reconhecer em cada um dos seus textos, não só por compartilhar as idéias, mas também pelo toque de humor nas análises sociais. Em muitas pessoas sinto essa veia aberta de "pensadores", e fico realmente encantada ao perceber que o social realmente funciona.
É esse impulso que está me guiando às minhas origens, em Piracicaba, assim como a sua... o colégio... o rock.... o skate... o teatro... o verde dos refúgios, as muitas possibilidades de fugir do comum...
Que bom saber de vc!

Mari Pavanelli disse...

Totalmente de acordo, pois sou fã incondicional dos livros, o que é meio fora de moda hoje, né?
E desde que aprendi a ler, pois a TV estava só chegando (sim senhor, sou velhinha...). Em casa havia professores, eternos defensores da leitura e nada melhor para apaziguar uma criança que os belíssimos contos de fadas, dragões, reis, príncipes e magos.
Depois Monteiro Lobato, apesar das críticas, ainda imbatível no quesito infantil, introduzindo a mitologia grega em minha alma.
Depois Érico Veríssimo, "escondido" claro, assim como revistas como "Realidade", que nos anos 60 chocava com fotos científicas do corpo humano, as revistas de atualidades mostrando o pouco permitido na época cinza das ditaduras, o cinema europeu sem efeitos especiais, Beatles, Rolling Stones. Era muita fome de informação e conhecimento e tal... Só sei que já eram poucas as crianças interessadas ou com paciência.
Depois, enfim, a literatura "pesada": os clássicos, os modernos, os pós, a faculdade de letras.
Hoje ler pra mim só perde para o cinema, outra paixão cultivada desde cedo, um mistério, um fascínio...

por Pedro Rosas disse...

Mari,
hoje moro há pouquíssimos km's do sítio onde Monteiro Lobato viveu parte de sua infância (se não sabe, moro ao lado de uma cidade chamada Monteiro Lobato). é um daqueles casarões de fazenda, da época do café, sabe? paredes, janelas e portas colossais (onde você se sente uma criaturinha, uma criança, como se o homem assim fosse: um Pedrinho, uma Narizinho). é bom sentar lá, no canto da sala, ouvir o silêncio de Anastácia (de sua "cuca"), olhar aquela "natureza gorda" e enxergar Montêro Lobo (não o homem carrasco, mas o menino) começando a debulhar seus primeiros sabugos de milho, que ajudariam , mais tarde, a compor esse universo mitológico que vc falou. venha conhecer, Mari. antes que o Pedrinho aqui morra de saudade...

Ana Cândida Vidal Franco disse...

Oi Pedro! tudo bem?
parabéns, gosto dos seus artigos,
bjs...